sábado, 6 de agosto de 2011

VOO 447 DA AIR FRANCE

Relatório detalha lapso dos pilotos no voo da Air France
A tradução para o inglês do mais recente relatório da investigação sobre o acidente com o voo 447 da Air France, divulgada hoje, pinta um quadro fascinante de uma cabine de comando confusa, aparentemente sem liderança, onde a disciplina e os procedimentos básicos de segurança entraram em colapso.
A atualização completa, de 113 páginas, dos investigadores franceses do acidente, que até agora só estava disponível em francês, mostra os pilotos da aeronave da Air France que caiu há dois anos no Oceano Atlântico como espantados e, às vezes, parecendo agir com fins contraditórios.
Sem chegar a conclusões formais sobre a causa do acidente de 2009 que matou todas as 228 pessoas a bordo, o documento apresenta as evidências mais fortes até agora do motivo pelo qual os investigadores estão mais concentrados em examinar os lapsos dos pilotos, e não o mau funcionamento da aeronave, problemas com o projeto desta ou falhas na automação.
O relatório oferece um contraponto às recentes alegações de alguns líderes sindicais dos pilotos de que o órgão do governo francês encarregado dessa importante investigação, o Bureau d'Enquetes et d' Analyses (BEA, Escritório de Investigações e Análises), minimizou as alegadas falhas dos sistemas de alerta de falta de sustentação em centenas de aeronaves Airbus A330.
O principal sindicato dos pilotos da Air France observou ontem que "provavelmente existem causas que se originaram dos pilotos". Mas o sindicato disse ainda que não "quer que todos os outros fatores possíveis" envolvendo o avião ou a empresa aérea sejam desconsiderados, "e é essa a impressão de que o relatório e o BEA estão dando."
Quando o comandante do voo 447 foi para a cabine dos passageiros para um descanso de rotina, antes do início da emergência, o relatório diz que deixou os dois co-pilotos na cabine de comando, sem designar claramente qual deles estaria no comando do avião, e "sem especificar as condições que exigiriam que voltasse antes à cabine". Esse lapso, segundo o relatório, "pode ter levado à divisão de tarefas menos que ideal observada entre" os co-pilotos.
O que ocorreu, segundo os investigadores, é que o co-piloto mais graduado aparentemente se distraiu no meio da situação de emergência por tentar, várias vezes, chamar o capitão volta à cabine de comando.
Desde o início dos problemas do Airbus A330, quando o mau funcionamento dos sensores de velocidade do ar obrigou a tripulação a começar a manobrar manualmente o jato de 200 toneladas, em meio a uma tempestade, no escuro e em altitude de cruzeiro, o relatório descreve repetidas ocorrências em que os pilotos não trabalharam em conjunto. Sem conseguir compreender sua situação perigosa, os co-pilotos não fizeram checagens verbais de dados essenciais como velocidade, altitude e ângulo do nariz do avião. Essas comunicações fundamentais de segurança em geral são de rotina para pilotos experientes.
O co-piloto menos graduado, que permaneceu no comando durante quase o tempo todo nos últimos quatro minutos do voo, inicialmente puxou bem para trás os controles para subir acima de 35.000 pés. O outro co-piloto o advertiu "várias vezes para descer" e baixar o nariz do avião, segundo o relatório. Mas o jato continuou a subir, e o grau de ascensão "continuou excessivo", sem qualquer intervenção direta do outro co-piloto, como detalha o relatório.
Com o nariz da aeronave em um ângulo excepcionalmente elevado e o piloto menos graduado dizendo duas vezes "que havia perdido o controle do avião", o outro co-piloto, sentado ao seu lado, assumiu brevemente os controles. Mas o piloto menos graduado "tomou de volta os controles quase imediatamente", continua o relatório, sem avisar, como necessário, que estava voltando a pilotar o avião.
Quando o capitão correu de volta à cabine de comando — menos de dois minutos depois que o piloto automático e outros recursos automáticos se desligaram abruptamente — o relatório indica que não foram passadas informações adequadas sobre o que havia acontecido. "Nenhum dos dois co-pilotos lhe deu um resumo exato dos problemas encontrados, nem de suas ações", diz o relatório.
De modo geral, segundo o documento divulgado na manhã de hoje no site do BEA, os co-pilotos informaram ao capitão que "tinham perdido o controle do avião e haviam tentado de tudo" para retomar um voo seguro.
O capitão, por sua vez, não "fez perguntas que poderiam tê-lo ajudado a compreender a seqüência dos acontecimentos", segundo o BEA.
Mais de dois minutos antes do acidente, quando o A330 estava voando em velocidade baixa demais para manter a sustentação e ia despencando no mar em uma falta de sustentação aerodinâmica, o piloto menos graduado "disse que achava que estavam em uma situação de excesso de velocidade", segundo o relatório.
Nenhum dos outros dois pilotos analisou essa suposição, segundo a BEA, apesar de que era "incompatível com a inclinação do nariz para cima e a alta velocidade vertical" com que o avião continuava a cair.
O relatório conclui, em parte, que "nenhum dos três membros da tripulação parecia capaz de determinar em quais informações deveria confiar."
Durante todo o evento, a equipe nenhuma vez identificou explicitamente que estavam em uma situação de perda de sustentação; e o gravador de voz da cabine de comando não captou qualquer discussão sobre os prolongados alertas a respeito que havia em toda a cabine, segundo o relatório.

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